O Retrocesso da Diplomacia Internacional da Nações Unidas é Intensificado pelo Fim do Cessar-Fogo em Gaza

Delegações deixando seus cargos durante discurso de Benjamim Netanyahu.

A retomada dos bombardeios em Gaza após o colapso do cessar-fogo representa um enorme retrocesso humanitário e diplomático. O período de trégua, ainda que frágil e temporário, permitiu a entrega de ajuda humanitária essencial à população civil e abriu um canal para negociações de paz. O fim desse acordo não apenas reacendeu o conflito, mas também aprofundou o sofrimento da população e minou os esforços internacionais para uma solução pacífica.

Durante o cessar-fogo, agências da ONU e ONGs puderam intensificar a distribuição de alimentos, água potável e suprimentos médicos na Faixa de Gaza. Garantindo a milhares de refugiados a volta até suas casas em uma breve segurança. A paralisação dos combates permitiu que muitos civis deslocados tentassem reorganizar suas vidas temporariamente.

No entanto, o fim da trégua jogou Gaza novamente no caos, interrompendo a assistência humanitária e tornando ainda mais difícil a entrega de recursos básicos. Hospitais já sobrecarregados estão sendo alvos de bombardeios, e as mortes de civis aumentaram drasticamente em poucos dias. Isso representa um retrocesso catastrófico para uma população que já estava em extrema vulnerabilidade.

Um Passo Atrás na Busca por Paz

O fim do cessar-fogo não representa apenas a volta dos ataques, mas a destruição de qualquer esperança de avanço nas negociações de paz no curto prazo. A escalada da violência reforça um ciclo de represálias que pode durar meses ou anos, atrasando ainda mais qualquer possibilidade de uma solução diplomática duradoura.

A ONU e outros organismos internacionais agora enfrentam o desafio de restaurar a credibilidade de seus esforços de mediação. Sem um compromisso global mais forte para impor sanções, negociar um novo cessar-fogo e garantir o respeito às leis humanitárias, a tendência é de mais sofrimento para a população civil e um agravamento da crise geopolítica no Oriente Médio.

O que está acontecendo em Gaza não é apenas uma tragédia local – é um fracasso e descaso global.

O Enfraquecimento da ONU e da Diplomacia Internacional

As Nações Unidas desempenharam um papel crucial na mediação da trégua, trabalhando para criar um espaço de diálogo entre Israel, o Hamas e outros atores internacionais. No entanto, a retomada da violência demonstra a dificuldade da ONU em garantir o cumprimento de seus próprios acordos e a falta de mecanismos eficazes para impedir novas ofensivas.

Entretanto, retomada dos bombardeios em Gaza não é apenas um reflexo da fragilidade dos acordos de cessar-fogo, mas também evidencia o fracasso recorrente da ONU na mediação deste e de outros conflitos internacionais. Desde a criação do Estado de Israel em 1948, a ONU tem sido incapaz de estabelecer uma paz duradoura entre israelenses e palestinos, acumulando uma série de resoluções ineficazes, vetos políticos e tentativas de mediação que não produziram resultados concretos.

Ao longo das décadas, a ONU aprovou diversas resoluções pedindo o fim da ocupação israelense, a criação de um Estado Palestino e o respeito aos direitos humanos na região. No entanto, essas resoluções raramente foram implementadas devido à falta de mecanismos de fiscalização e à interferência de grandes potências globais, como exemplo principal dos Estados Unidos.

Alguns dos exemplos de fracasso diplomático ao longo dos anos de conflitos são; a resolução 242 de 1967, exigia a retirada de Israel dos territórios ocupados após a Guerra dos Seis Dias, no fim nunca foi implementada; aesolução 338 de 1973, pedia o fim imediato da Guerra do Yom Kippur e um acordo de paz entre as partes, mas a resolução nunca foi totalmente cumprida; e a resolução 2334 de 2016 que foi aprovada ao condenar os assentamentos israelenses na Cisjordânia, mas ignorada pelo governo israelense sem consequências.

E então, como se explica o fato de que a própria organização que criou todo esse conflito em 1948 com a divisão da Palestina, é a mesma que hoje não tem mais o mesmo poder de acabar e gerencia-ló?

A resposta se encontra na crescente e silenciosa hegemonia política das potencias mundiais sob a ONU.

O Papel Insensível do Veto dos Estados Unidos no Conselho de Segurança

Um dos maiores obstáculos para qualquer avanço nas negociações sobre Gaza é o poder de veto dos Estados Unidos no Conselho de Segurança da ONU. Como membro permanente do órgão, os EUA têm usado seu veto sistematicamente para bloquear resoluções que condenam as ações de Israel ou que buscam impor sanções ao país.

Desde 1972, os EUA vetaram mais de 45 resoluções da ONU relacionadas a Israel e Palestina, impedindo investigações, sanções e tentativas de intermediação. Em outubro de 2023, os EUA vetaram uma resolução que pedia um cessar-fogo imediato em Gaza, apesar do apelo de dezenas de países e organizações humanitárias. Em dezembro de 2023, voltaram a vetar outra resolução que exigia a entrada irrestrita de ajuda humanitária na Faixa de Gaza.

Esse padrão de vetos demonstra como os interesses geopolíticos dos EUA muitas vezes se sobrepõem à necessidade humanitária, deixando milhões de palestinos desprotegidos e sem uma solução política viável.

A ONU é controlada?

A incapacidade da ONU de agir efetivamente em Gaza não é um caso isolado – é um sintoma da estrutura de poder global da organização, que reflete os interesses das grandes potências, em detrimento dos países em desenvolvimento.

Desde sua criação, a ONU foi desenhada para ser um instrumento de equilíbrio geopolítico das nações mais ricas e poderosas, o que se reflete na composição do Conselho de Segurança.

Apenas cinco países – EUA, Rússia, China, França e Reino Unido – têm poder de veto absoluto, permitindo que bloqueiem qualquer resolução contrária a seus interesses. Por outro lado, países do Sul Global, que são frequentemente afetados por guerras e crises humanitárias, não têm o mesmo peso nas decisões.

Isso significa que países como Palestina, Síria, Sudão e Iêmen não têm voz real nas decisões que afetam suas próprias crises, enquanto as potências globais continuam a usar a ONU como uma ferramenta para proteger seus aliados e manter o status quo.

O Futuro da ONU e a Necessidade de Reformas

A volta dos bombardeios em Gaza é mais um exemplo de como a ONU fracassa em seu papel de mediadora de conflitos quando enfrenta a resistência das grandes potências. Enquanto os EUA continuarem a usar seu veto para proteger Israel e enquanto a estrutura do Conselho de Segurança permanecer inalterada, as Nações Unidas dificilmente conseguirão impor qualquer solução real para a crise humanitária palestina.

Se a ONU quiser recuperar sua credibilidade, será necessária uma reforma profunda, eliminando ou limitando o poder de veto e dando mais representatividade às nações em desenvolvimento. Caso contrário, a organização continuará a ser vista como um instrumento das potências ocidentais, incapaz de proteger aqueles que mais precisam.

No cenário atual, a esperança de um cessar-fogo duradouro e de um acordo de paz real parece cada vez mais distante. Sem pressão internacional e mudanças estruturais na ONU, Gaza continuará a ser palco de violência, sofrimento e injustiça.

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